Eleições no Reino Unido: tudo bem explicadinho

Na ultima quinta-feira aconteceram por aqui as eleicoes gerais. Desde que cheguei eu estava empolgado com essa historia de eleicao. Imaginava que todo mundo participaria, que seria como eh em Sao Paulo, onde dia de eleicao eh sinonimo de transito e loucura. Que nada. Se eu nao assistisse TV, ouvisse radio ou acessasse a internet, eu nunca ia adivinhar que houve votacao por aqui, ja que nao ha chuva de panfletos pelas ruas e que apenas cerca de 50% da populacao em idade para votar, votou.

O sitema eleitoral britanico eh confuso. Existem diversos partidos, mas apenas 3 deles possuem grande representacao no Parlamento: os Conservadores (ou tories), os Trabalhistas (do atual premie Gordon Brown) e o Liberal-Democratas (Lib-Dem para os intimos). O sistema eleitoral eh indireto, ou seja, o eleitores votam nos Membros do Parlamento (MP, similar a um deputado), que escolhem quem sera o novo primeiro-ministro. Entretanto, apesar de o eleitor nao ter o poder de escolher diretamente entre os candidatos a chefe do Executivo, a campanha que antecede os dia da eleicao eh totalmente feita pelos lideres do partido. Por exemplo, se o Gordon Brown viesse pra Bournemouth fazer campanha, ele nao pediria voto para si proprio, mas sim para o candidato a MP do Partido Trabalhista de Bournemouth. Entao, como vc ja deve ter entendido, o eleitor vota em um cara sabendo que esse cara, se eleito para o Parlamento, vai votar para que Gordon Brown seja reeleito primeiro-ministro. Complicadinho, neh.

Gordon Brown: nao saio, nao saio, nao saio

Mas nao va pensando que acabou nao. O Parlamento atualmente possui 650 cadeiras e o partido que conseguir metade das cadeiras mais uma – 326 para os bons de matematica – tem o direito de eleger diretamente o lider de sua agremiacao para o cargo de primeiro-ministro. Se nao houver maioria absoluta de nenhum partido, acontece o que eh chamado aqui de Hung Parliament (nao achei nenhuma traducao cabivel, entao vai o nome ingles mesmo), que eh quando o atual primeiro-ministro permanece no cargo ateh que algo seja decidido pelos MPs.

E foi exatamente isso que aconteceu nas eleicoes deste ano. Os tories tiveram o maior numero de MPs eleitos, mas nao conseguiram atingir a maioria aboluta do Parlamento e, consequentemente, nao elegeram seu lider, David Cameron, para o cargo de primeiro-ministro – situacao que nao acontecia desde 1974.  

Cameron: o partido venceu, mas ele nao

Agora eh que o bicho vai pegar. Gordon Brown ja declarou que nao pretende deixar 10, Downing Street, o endereco onde vivem os primeiro-ministros enquanto estao no poder. Os Lib-Dem, junto com seu lider, Nick Clegg, se tornaram objeto de desejo para a formacao de um governo de coalizao. Eh que, juntos, os trabalhistas e os Lib-Dems teriam a maioria no Parlamento, consolidando, assm, uma base para a manutencao de Gordon Brown no poder. Acontece que ontem, Cameron, dos conservadores, disse que sua legenda estah disposta a negociar com os Liberais Democratas para formar uma maioria absoluta baseada na coalizao de dois partidos. O engracado eh que, mesmo os Tories sendo extrema direita e os Lib-Dems sendo extrema esquerda, Cameron afirmou acreditar que os dois partidos possuem ideais em comum. Very funny! Mais engracado ainda eh ver que Nick Clegg disse que os liberais estao mais para o lado dos Tories do que para o dos trabalhistas.

E o futuro do Reino Unido nas maos de um cara: Nick Clegg

O sistema eleitoral e seus problemas

Apesar de possuir o voto facultativo – uma das melhores caracteristicas para a construcao de uma democracia inteligente -, na minha parca opiniao, o sistema eleitoral britanico mostrou-se falho no peito de 2010. Vou explicar porque. Imagine que a Inglaterra seja formada por cinco cidades, A, B, C, D e E. Agora imagine que nessas eleicoes, os candidatos conservadores de A e B – as duas maiores metropoles – receberam cerca de 1 milhao de votos cada e foram eleitos, somando 2 milhoes. Agora imagine que os candidatos Trabalhistas de C, D e E (cidades menores) foram eleitos em cada uma das cidades com 300 mil votos, somando 900 mil votos para os trabalhistas.

Certo, no mesmo ambiente de imaginacao, pense que os cinco MPs – dois conservadores e tres trabalhistas – vao agora para o Parlamento. De qual partido vc acha que o primeiro-ministro sera eleito? Fica claro que, mesmo representando a vontade de 2 milhoes de eleitores, os dois conservadores possuem menos poder no Parlamento do que os tres Trabalhistas, que representam apenas 900 mil eleitores.  Isso eh eleicao indireta: nao representa exatamente o desejo da maioria da populacao.   

Voltando a realidade,  no atual cenario, apesar de terem vencido com a maioria dos votos, os conservadores correm o risco de nao elegerem um primeiro-ministro se os trabalhistas conseguirem uma alianca com os Lib-Dems – coisa que seria bem provavel. Em eleicoes diretas, como temos no Brasil, essa situacao seria facilmente resolvida com um segunto turno, coisa inexistente por aqui. Coisa de ingles. E como diria minha avo, essa historia ainda vai dar muito pano pra manga.

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